terça-feira, 3 de outubro de 2006

Nesse fim de tarde

Ele

Nesse fim de tarde, nesse fim de ano, nesse fim de tudo. Vem uma rajada vermelha e púrpura matando o sol e erguendo a lua sobre as suas idéias. Veio, junto com o desaparecimento do sol, um desejo incontrolável de ver o mar. Em sua cabeça e dela para os dedos, correu um instante de pureza nos pensamentos. Os dedos se retraíram cancelando qualquer ação. Depois o corpo se levantou da prostração e tomou nova postura, mais ereta, mais firme, de cavalo de corrida. Por último a cabeça despontou sobre todo o resto. Os olhos se firmaram em frente da tela do computador e do peito expulsou um suspiro libertador, quase um protesto. Ainda sentado olhou em volta para perceber se ninguém o tinha visto. Era um super-herói sem uma cabine telefônica para revelar-se. O suspiro fez as cinzas de cigarro voarem. Umas chepas também caíram. Tirou o cinzeiro pesado de pedra sabão e soprou as cinzas para fora da mesinha. Ergueu-se todo, começou abrindo gavetas e procurando a pasta. Escancarou com força o armarinho debaixo da mesa e revirou alguns papéis. Antes de se levantar certificou-se que não havia esquecido nada que fosse seu. Queria abandonar aquela sala medíocre, toda a mediocridade. Fora da sala, através do corredor principal ele não olhava para os lados. Andava estampado o sorriso de fim de expediente. Mas na salinha do ponto não parou, seguiu adiante. Ninguém o percebeu. Em verdade ninguém o perceberia ainda que estivesse de vestido e estola. Ainda não tinha pensado para onde iria, ou de quanto dinheiro dispunha para tal mudança. Não havia pensado em nada. Mas essa mudança não é liderada pela razão. Talvez nem mesmo pela emoção, só um desejo que a gente atende. Pelas ruas olhava mais para os lados que para os sinais de trânsito, mais para os cachorros que para as placas. Em casa percebeu que tinha pouco dinheiro, na verdade só 350 pratas. “Sabe o que é? É que surgiu um imprevisto e to precisando de grana...” “Mas qual imprevisto meu filho? Ah mãe, não tenho como explicar, mas está tudo bem. Acho que as coisas nunca estiveram tão bem”. Até as dez horas havia conseguido juntar 900 pratas. Não sabia se era o suficiente, mas era o que tinha. “Quando se tem uma idéia libertária é necessária uma medida libertária”. Lançou-se sobre a cama e riu um pouco, expurgando em gritos a carta de alforria que assinava sobre si. Se encontrou livre naquela cama vazia. Uma cama tão pequenina que mal caberia uma boneca sem cabeça. Riu até doeram o maxilar e as bochechas. Então um olho encheu-se de saudade e esguichou sobre o rosto uma feição desoladora, triste demais para libertar alguém. Fechava os olhos na tentativa de espantar aquela lágrima impulsiva. Mas com ela vieram outras e em alguns instantes havia muitas delas. Tantas a ponto de não poder controlá-las mais. As lágrimas transformaram seu rosto num retrato cubista de tão desfigurado. Mas a coragem já o havia seduzido de todo. Levantou-se e outro suspiro / protesto saiu do peito. Esse mais forte que o primeiro, contundente mesmo aos ouvidos que quem não pode ouvi-lo. Não é difícil sair de casa sem olhar para trás, sem levar memórias concretas ou abstratas, pensava. O carro não pegou logo de primeira. Tremelicou até engasgar com fumaça e ligar. Só quando já cruzava a esquina do quarteirão é que olhou pelo retrovisor uma última vez. Tudo continuava igual a como sempre foi. E àquele ponto, como achava que tudo sempre seria. Não é uma vidência. É uma progressão matemática. Essa velha casa acabará com o tempo. Assim como as macieiras e rosas do jardim. Tudo que há ali no único lugar que conheço morrerá aos poucos. Tudo morre. Aos poucos ou não. O carro já enfrentava os primeiros raios da manhã quando decidiu parar e comer qualquer coisa. Uma garçonete de timbre agudo o atendeu com o habitual “o que o senhor deseja?”. Tomou o café e fumou outro cigarro. Queria encontrar um Sargento Garcia, um leão que gritasse uma direção. Qualquer que fosse. Dentro do carro, com a janela aberta e o rádio ligado juntou as mãos à boca, encostando a cabeça no volante, buzinando-sem-querer. O ruído fez o corpo estremecer e voltar a posição original. Ligou o carro e a partida sempre demorada fazia o carro chacoalhar estranho, tremer os vidros sujos. Finalmente um ronco oco e fumaçento empurrou o carro. Uma vozinha no rádio pedia uma razão apara ser uma mulher, para amá-lo. Ele só queria encontrar um lugar longe, longe o suficiente. Ali era longe o suficiente e ainda havia muitas lonjuras para se deixar para trás. Dois versos depois um estalo grave e contínuo parou o carro. Desceu, bateu a porta. Uma nuvem tão escura de algodão sujo pousava sobre o capô do velho Volkswagen. A iguinição inútil não fazia barulho algum, nem um ronronar de gato satisfeito. Acendeu outro cigarro para abrir o carro e verificar que nada sabia sobre carburador ou motor ou qualquer peça de design e função particular. Só ele e um cigarro, sentados no acostamento.

Luis
tem trinta anos e não concluiu o segundo grau. Desde sempre usou uma barba espessa, porém macia como manga. Sonhava em conhecer o Rio de Janeiro. Agora já o conhecia. Há sete anos trabalhava numa fábrica de móveis como entregador. Viajava muito. Não era de fato um caminhoneiro. A mãe antes de morrer deu-lhe uma correntinha de ouro com a imagem de Nossa Senhora. Cada vez que conversa com alguém, sem perceber fica balançando o pingente de um lado para o outro num movimento quase sexual. È um tique. Viu um carro parado no acostamento. Não hesitou em parar. Era o que se chama de “prestativo”. Desceu com as mãos coçando a barba que refletia raios ruivos ao sol. “Quer ajuda?”. Ele saltou do meio fio numa expressão quase canina de tão agradecida. “Não sei o que aconteceu... Uma fumaça... Uns estalos...”. Um breve aperto de mão sem apresentações ou rabinhos abanando. Luis se segurou um pouco para não rir dele: “É só água, precisa de água”. Lançou o andar palerma até o caminhão e pegou uma garrafa de refrigerante. Girou uma torneirinha num barril fixado ao lado da porta do carona e encheu a garrafa com água. Os dois conversaram um pouco. Luis o chamou para tomar um café. Ele aceitou apesar de já ter tomado. “Dois cafés”. Ele olhou para a garçonete que dessa vez os poupou do agudo texto decorado. Ela não o reconheceu de minutos atrás. Ninguém o reconheceria ainda que estivesse sem vestido e estola. A correntinha percorria o peito dele penteando os pelos de um lado para o outro. “Estou indo para lugar algum. Sem direção. Sabe?” “Levantei ontem da minha mesa e fui embora. Para sempre”. A correntinha parou. Luis ouviu com tanta atenção o colóquio do novo amigo que suas palavras o congelaram por um instante de tempo. Pausa. “Eu ando meio sem destino”. As palavras rompiam um silêncio sólido entre os dois. A conversa se alongava e entrava em por menores várias vezes. Os cafés começaram a se amontoar diante dos dois. Luis voltou a mão à correntinha de ouro e apertando os olhos disse que tinha de ir embora. Saíram. Houve uma pausa na conversa, longa e temerosa. Havia algo a dizer. Mutuamente os olhos se empalideceram. Temos que ir de encontro ao que nos espera. Se abraçaram ao despedir-se. Não poderiam entender mesmo que a conversa se alongasse pelos kilometros que gostariam de percorrer. Havia qualquer coisa de flerte, de encontro naquela conversa. De onde estavam viam o carro parado à margem da estrada e o caminhão logo à frente. Andaram de encontro, os dois, não sabendo bem a que.

Um comentário:

Thais disse...

menino. quero mais! escreva tudo! mais mais.